Guliver

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25 janeiro, 2018

GULIVER


                                                                                                                      Autor: Lorenzo Aldé

 

Abre-se a porta e em frente aos meus olhos, não aparece nada além de paredes, janelas, prateleiras com brinquedos, desenhos de crianças num mural. Que alívio! É a primeira semana de aula, acho que os alunos não vieram. Vamos embora para a casa, mas Helena já soltou a minha mão e entrou na sala. Só então que olho para baixo, procurando-a e vejo que há várias outras crianças explorando timidamente, aqui e ali, os mil atrativos de sua nova vida. Duas mesinhas que batem em minha canela, rodeadas de cadeirinhas do mesmo tamanho, são os únicos móveis da espaçosa sala. Sinto-me um Guliver, cercado de menininhos e menininhas, nada à vontade naquele ambiente miniatura. O que será que eles vão fazer aqui?

Deve haver alguma coisa errada, é o que pressinto, mas não quero admitir, em minha racionalidade educativamente correta.

“A serenidade paterna é fundamental…”

É a semana de adaptação, dizem. Pais, mães ou avós, precisam estar aqui por perto, a postos, para eventuais crises de insegurança de nossos pequenos rebentos, mas ela já entrou há cinco minutos e daqui onde estou, a cerca de 50cm da janela, ainda não ouvi nenhum choro. Acho que está se entendendo bem com os coleguinhas. Na verdade, é mesmo uma graça saber que ela está compartilhando experiências e aprendizados com outras crianças de sua idade. Seus primeiros amigos fora do círculo familiar. Ai, meu Deus, é ela! Está gritando “Papai” a plenos pulmões. Os outros pais se entreolham angustiados. Eu não posso me mexer: Fui instruído a esperar a professora aparecer. Abre-se a porta e eu me transformo novamente em gigante à colher minha pobre menina no chão e acolhê-la em meus braços. Soluça profundamente. Eu sabia que isto não ia dar certo.

Aqui estou eu, sentado no chão com ela grudada no meu colo, enquanto tento sem muita convicção incentivá-la em sua socialização: “Vai lá, filhinha, papai vai ficar bem aqui. Olha lá seus novos amigos. Vai brincar de massinha com a Luana, vai.” Rapidamente já sei o nome de todos os coleguinhas. Eles também já se habituaram em minha presença. Há três dias que eu tenho que entrar com a Helena e ficar, pelo menos, meia hora com eles. Até que a professora leva todos para uma atividade externa e ela finalmente consegue se separar de mim correndo feliz para o pátio.

Ao chegar no primeiro dia, apresentei Helena à primeira educadora de sua vida: “Diz bom dia pra tia Dulce.” “Dulce”, corrigiu-me a professora. Tia não. Aos 29 anos, sinto-me um senhor que não acompanhou a evolução da sociedade e da educação.

Passa 3 horas sem mim, durante as quais meus ouvidos captam até um zumbido de Aedes aegypti e a cada choro de criança levanto-me da cadeira, não porque ache que é ela, pois desde a maternidade seu timbre é inconfundível para mim, mas pela clara premonição de que serei o próximo. As conversas entre os pais “em adaptação” são amenas, mas nunca se completam, interrompidas pelo choro e olhares de angústia mal disfarçada. “Como posso sujeitar meu filhinho a isto? Como pode ser bom, um lugar onde os pais fazem plantão para socorrer o desespero de seus filhos?”, este é o tipo de pensamento que vai pela cabeça de todos. Sorte teve minha mulher, professora, que não pode faltar ao trabalho e livrou-se deste teste para os nervos. Acho que seus alunos não choram ao ir para a escola, ou pelo menos disfarçam.

Quando estava pensando nos benefícios da educação caseira, alternativa, talvez em Alto Paraíso, eis que Helena aparece cansada, suja de areia e de tinta, feliz. Dá um beijo na professora Dulce e volta cantando no carrinho. O que terá acontecido lá dentro?

“Ela está indo muito bem…”

Quanto menos ela precisa da minha presença mais a curiosidade toma conta de mim. Ela está gostando da escola? Já acorda pedindo para ir correndo para lá e todo dia pergunta onde estão o Felipe, Conrado, o Bernardo, a Isabela e a Marina. “Estão em casa, com o papai e a mamãe deles”, digo e completo em pensamento: “… Que é onde todas crianças deveriam ficar”.

Os pais me olham com uma ponta de inveja ao ver que ainda estou acompanhando Helena dentro da sala na primeira meia hora de aula. “Ops”, eu disse “aula”? Bem por que não? Ela tem uma professora e colegas, ela produz e aprende, ela canta, pinta, brinca, lê livros e ouve histórias. Seus desenhos já estão no mural (mas eu os colocaria um pouco mais no centro, afinal são os mais bonitos, mas é melhor não interferir na adaptação). Na verdade, eu é que deveria invejá-los, pois seus filhos já estão independentes o suficiente para entrar sozinhos em suas turmas.Na saída, ávidos por informações, cercam as professoras. As notícias são simples e diretas: “Ele está indo muito bem pode ficar tranquila” Lá se vão meus companheiros de adaptação cheios de interrogação flutuando sobre suas cabeças.

Guliver vai sentir saudade de seus diminutos amigos, que já correm para abraçá-lo quando chega e vivem mostrando suas artes para ele. Hoje Dulce me disse que eu já poderia ir para casa, afinal moro perto e se Helena precisasse me chamariam. “Como é?”, assustei-me, para logo me recuperar: “Ah, sim, claro. Mas é que não moro tão perto assim. Quem sabe amanhã…”

Pelo visto a adaptação está chegando ao fim. Os choros estão menos frequentes e já nos disseram que este espaço é das crianças, não é lugar para os pais. O pior é que é verdade. Além das cadeirinhas serem muito desconfortáveis para um adulto, nossa presença aqui não tem mesmo nenhuma utilidade. Neste ambiente elas construirão suas primeiras relações sociais, aprenderão que são pessoas autônomas, que podem criar, experimentar, fazer escolhas e assumir as consequências de suas iniciativas. Serão incentivadas por novas referências, novas regras comuns a todos, convivendo com pessoas, espaços, objetos e informações que não conheceriam em casa.

Sim, dois anos já é uma idade mais do que adequada para o início da Educação Formal. É justamente o momento em que a criança está segura em sua casa e com seus pais, em que ela passa a dominar as ações e relações “em seu território”, em que o mundo faz toda a lógica e ela parece poder manipulá-lo como bem entende. Está na hora de ver que a vida é um pouquinho mais complicada e muito mais fascinante do que ela pensa. A creche… Não, a escola, ou melhor, a Educação Infantil aparece para desestabilizar a vida de uma pessoa que está no auge de suas potencialidades de aprendizado, para quem o espaço familiar já está ficando limitador. Os Gulivers são elas, que crescem numa casa (ou, pior, num apartamento) que já não lhes oferece tudo que precisam para crescer mais e mais.

Minha filha está indo à escola e eu estou orgulhoso disto, assim como dizem os olhos de todos os outros pais. O triste é termos que ir embora daqui. Justo agora que estávamos tão adaptados.

 

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